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19/12/2007
"É bom que a gente saiba que no Brasil a terra treme", diz geólogo


PAULO PEIXOTO
da Agência Folha, em Itacarambi

O Brasil sempre ignorou o risco de terremotos, até que na semana passada um deles matou uma menina de cinco anos em Minas e expôs a falta de pesquisa, a precariedade das casas em áreas suscetíveis a abalos e a dificuldade da instalação de equipamentos para estudos.

Essa é a opinião de Lucas Vieira Barros, chefe do Observatório Sismológico da UnB (Universidade de Brasília). Durante a semana, ele fez análises em Itacarambi (662 km de BH), onde um tremor de 4,9 graus na escala Richter destruiu casas da comunidade de Caraíbas e deixou seis feridos, além da criança morta.

Para o geólogo, as autoridades nunca "deram ouvidos" aos alertas dos especialistas, pois existe "uma mentalidade de que a terra não treme no país".

Folha - Para o observatório da UnB, o tremor em Itacarambi deve ser encarado como um marco?
Lucas Vieira Barros - Deve, porque foi o primeiro terremoto brasileiro que gerou uma vítima. E isso é um fato que deve ser encarado com seriedade por todos nós que trabalhamos com sismologia.
Outro fato importante é que nós não esperávamos que essa magnitude viesse a ser verificada aqui [Itacarambi]. O primeiro sismo ocorreu em maio [3,5 graus na escala Richter] e não tínhamos conhecimento de nenhuma sismicidade aqui. A magnitude de quase 5 graus nos surpreendeu.

João Wainer/Folha Imagem

O prof. Lucas Barros, sismologo da UNB, durante entrevista em Itacarambi (MG); autoridades nunca "deram ouvidos" aos alertas

Folha - Há quem acredite que o Brasil é imune a terremotos.
Barros - É verdade, mas, para nós [especialistas], o Brasil já era um país sísmico. Há bastante tempo a UnB vem detectando tremor de terra no Brasil, em vários lugares. Tremor de terra pequeno, de 2 graus, 3 graus, é fácil de acontecer em vários lugares. Tremor de terra de magnitude 5, 6 e até 7 graus é possível, porque em outros países que têm geologia semelhante à do Brasil já ocorreram tremores de terra grandes.

O grande problema de uma região intraplacas, como o Brasil, é que os sismos são cíclicos. O tempo de recorrência do sismo é muito grande. A gente não conhece a história sísmica do Brasil. Então pode ser que os nossos estudos, que são muito recentes, não tenham identificado ainda determinadas falhas geológicas ativas que existem em algum lugar, como é esse caso aqui. Aqui existe uma fonte sismogênica capaz de produzir terremoto de magnitude 5,0. Nós não sabíamos da sua existência.

A pergunta é: será que não existe em outro lugar que nós também desconhecemos? Ou será que as fontes que nós identificamos não são capazes de produzir sismos maiores? Até hoje no Brasil o maior terremoto que se conhece foi de 6,2, que aconteceu [em 1955] em uma região completamente desabitada [norte de MT]. Hoje, o adensamento populacional existente na área é grande. Existe muita gente morando lá. A repetição de um terremoto de 6,2 naquela região já poderia, por certo, produzir danos.

Folha - O sr. diz que há um problema social em relação às moradias. Essa primeira morte poderia ter sido evitada caso a criança morasse numa construção convencional?
Barros - Sim, com certeza. As casas de melhor qualidade na vila sofreram menos danos. Entretanto, nós não sabíamos que aqui existia uma zona sísmica. Fomos pegos de surpresa. No Rio Grande do Norte e no Ceará, sismos de igual magnitude, ou até maiores, já produziram danos até superiores a esse. O governo federal, na época, reconstruiu as casas.

A repetição do sismo em João Câmara [no RN, em 1986] já encontraria construções mais preparadas, os danos materiais seriam bem menores. Mas a gente observa que os prejuízos causados vêm aumentando com o tempo basicamente em função do adensamento populacional.

No norte de Mato Grosso, em 1955, em um raio de 200 km não havia cidade nenhuma. Hoje, em um raio bem menor já há cerca de 300 mil pessoas. Significa dizer que a probabilidade de os terremotos produzirem prejuízo ou morte aumenta. As pessoas passam a viver mais próximas dos sismos.

Esse terremoto deve servir como um marco. A gente pede calma às pessoas, diz que os grandes sismos não vão acontecer e, infelizmente, somos pegos de surpresa.

Folha - Houve falha da UnB?
Barros - Não, não pode ser interpretado como uma falha, até porque o observatório vem envidando todos os esforços. A gente poderia olhar com mais atenção, monitorar de forma mais eficiente o Brasil. Estamos, por exemplo, com um projeto de instalação de uma rede sismográfica nacional, que vai operar em tempo real com dados sendo enviados via satélite para Brasília. Provavelmente aqui deve ser um local onde colocaremos uma estação sismográfica. Entretanto, temos limitação de recursos.

Os recursos que temos para implantar essa rede foram captados pelo próprio observatório sismológico, por meio de convênios da prestação de serviço que fazemos para as empresas de energia nacionais. Em 2005, a UnB fez um evento em Brasília com toda a comunidade sismológica nacional. Discutimos potenciais fontes sismogênicas no Brasil, com participação da Defesa Civil do Ceará, de Mato Grosso. Mas as coisas sempre morrem.

Folha - As autoridades brasileiras não deram ouvidos?
Barros - Não deram mais ouvidos por causa dessa mentalidade de que a terra não treme no Brasil. É bom que a gente saiba que treme, sim. Fizemos apresentação para a comunidade de Itacarambi e eu vi que as pessoas começam a cobrar da universidade o fato de não ter avisado que ia ter tremor de terra, que o tremor de terra podia acontecer e que ele poderia ter sido evitado se nós estivéssemos mais presentes, acompanhando isso.

Acho que a questão não é pôr a culpa em ninguém. A questão agora é aproveitar o instante, o evento, para discutir a necessidade de haver um órgão centralizador, com recursos, com potencial de dados, que possa analisar continuamente.

Folha - Se fosse nos Estados Unidos, por exemplo, haveria o alerta?
Barros - Não, não teria alertado, porque terremotos são imprevisíveis em qualquer lugar do mundo. A gente antevê algum fenômeno quando pode analisar aquelas variáveis que estão associadas à ocorrência dele.
Você prevê o tempo observando a pressão [atmosférica], umidade, temperatura, presença de massa etc. E observa satélites. Terremoto, não. A terra não é transparente. As coisas acontecem debaixo dos nossos pés, a um, dois, cinco quilômetros de profundidade.

Então, as variáveis associadas a uma ocorrência sísmica são as forças geológicas que estão presentes no interior da terra. Precisaríamos medir essas forças, medir a razão de crescimento dela e, mais ainda, determinar o limite de ruptura das rochas. E isso nós não podemos fazer. Infelizmente, não podemos prever os terremotos.

Entretanto, as estações sismográficas denunciam a presença e permitem identificar as fontes de terremoto. Dou o exemplo de um terremoto na Califórnia de 6,5 graus que matou duas pessoas e um terremoto de 6,5 em Bam, no Irã, que matou 42 mil pessoas e arrasou o lugar. Isso porque [nos EUA] as pessoas estavam mais preparadas, se preveniram melhor. De que forma? Identificando essas falhas sísmicas, essas zonas sismogênicas.

Folha - Quanto custaria pelo menos uma estação?
Barros - No máximo, US$ 20 mil. O observatório tem uma rede sismográfica com 22 estações estocadas em Brasília. E essas estações existem para substituir os instrumentos de uma rede sismográfica que tem no Parque Nacional de Brasília.

Lá existe uma rede que foi instalada em 1968 e que caducou. Ao longo dos anos o observatório trabalhou, investiu cerca de R$ 1 milhão, comprou 22 estações [ele faz uma pausa e chora]. Não conseguimos instalar porque o parque não nos dá autorização [outra pausa].

É difícil trabalhar. Eu entendo que a legislação ambiental mudou no Brasil, mas para nós é muito trabalhoso escrever documento, fazer ligação, pedir às pessoas. Os parques nacionais que existem pelo mundo normalmente são ambientes favoráveis e adequados à instalação de estação sismográfica.

A sismologia na UnB existe porque em 1968 escolheu-se o Parque Nacional de Brasília como ambiente favorável à colocação de estações. Então, instalou esse arranjo sismográfico da América do Sul, que funcionou por muito tempo, mas os instrumentos ficaram velhos. O adensamento populacional em volta do parque cresceu e o ruído ambiental também. Mas até hoje não conseguimos pôr as estações lá dentro.

Folha - A autorização foi negada?
Barros - O parque nacional se sentiu incapacitado para decidir, encaminhou para o Ibama, e a gente não consegue resposta nem que sim nem que não.


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